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“Fate: A Saga Winx” quer abraçar o mundo com as pernas

Uma das mais aguardadas adaptações para live-action finalmente aconteceu. A Netflix ouviu o clamor de toda a geração Bom dia & Cia e trouxe o Clube das Winx para a realidade com “Fate: A Saga Winx”.  

Como na animação, a história inicia com Bloom (Abigail Cowen) chegando a Alfea para aprender a controlar os poderes. A escola fica em Outromundo, um lugar isolado de humanos e de criaturas sanguinárias chamadas Queimados. 

Cena de "Fate: A Saga Winx"
Foto: Reprodução

 A ruivinha logo faz amizade com as companheiras de dormitório Aisha (Precious Mustapha), Musa (Elisa Applebaum), Terra (Eliot Salt) e a mimada Stella (Hannah van der Westhuysen). Já aparece aqui a primeira diferença entre a produção e o desenho purpurinado, você deve ter sentido falta de Flora e Tecna nesse grupo. 

Os responsáveis pela série não deram nenhuma explicação sobre a ausência delas, mas talvez apareçam na próxima temporada. 

A trama começa ambiciosa, trocando o glitter por um tom mais sombrio, se revezando entre um suspense e o drama adolescente. Uma vibe meio “O Mundo Sombrio de Sabrina (2018).” Ou seja, tinha tudo para ser uma produção aclamada, no entanto, o roteiro não só tinha buracos, como estava repleto de crateras. 

Bloom chegando a Alfea em Fate: A saga winx. Ela veste um cardigã vinho com uma blusa florida por baixo
Foto: Reprodução

“Fate: A Saga Winx” vem com sede demais ao pote e solta informações no ar que precisam ser amarradas em algum momento. Acontecimentos do início, como um humano que é atacado por um Queimado ou a possível ligação de Bloom com os monstros, não são mais aprofundados em momento nenhum na série.

Claro que nem tudo precisa ser explicado na primeira temporada, mas as coisas ficam tão vagas que se perdem ao longo dos episódios. Talvez, tenham esquecido que para uma trama ser bem trabalhada, ela precisa de camadas. E havia tempo para isso, cada capítulo tem 1 hora de duração em média. Infelizmente, não souberam aproveitar. 

Nem a fotografia com um bom uso de planos diferentes, as cores que deram certa vivacidade ao tom tenebroso, foram capazes de melhorar a produção. A trilha sonora, algo importante para manter o clima trevoso, também deixou a desejar.

As Winx reunidas na floresta
Foto: Reprodução

Mesmo sem conseguir entregar uma produção digna das fadinhas da nossa infância, Fate dividiu opiniões. Não é uma série ruim, tampouco é boa. É mediana e peca ao esquecer o básico. Resta a nós torcer para que melhore na segunda temporada, já anunciada pela dona Netflix. 

Girl Power? O que é isso? É filme?

Uma das coisas que mais gostava no desenho das Winx era a união feminina. Apesar das inimigas das fadas de Alfea serem mulheres também, as meninas purpurinadas eram muito amigas umas das outras e raramente brigavam entre si. 

Foto: Reprodução

“Fate: A Saga Winx”, por outro lado, decide jogar isso para escanteio e aposta numa rivalidade feminina desnecessária entre Bloom e Stella. Estamos cansadas de narrativas que ainda trazem mulheres brigando por macho ou qualquer outra coisa. Chega a ser ridículo. 

Sei que você não vai querer uma de nós

Bloom, Stella e Aisha em Fate: A Saga Winx
Foto: Reprodução

Além da ótica sexista, a produção traz um estereótipo racial com a personagem Aisha (a Layla na animação). A garota é o token perfeito para Bloom, sempre salvando a amiga branca dos apuros. É como se, literalmente, a vida dela girasse em torno da ruiva

Outros aspectos da personalidade de Aisha não são trabalhados, como o fato dela ser atlética. Nem sequer sabemos de onde ela vem, os outros gostos que possui. Fica aí mais uma missão para a próxima temporada.

Para completar a seleta de elementos presentes na maioria das produções dos anos 2000,só para mostrar que crescemos vendo filmes e séries cheias de problemáticas, a trama ainda faz whitewashing (embranquecimento). 

Elisha Applebaum como Musa
Foto: Reprodução

Se bem lembro, no desenho Musa era asiática – inclusive, o sobrenome dela é Kimura. Na série, ela foi interpretada por Elisha Applebaum uma atriz branca. Não preciso falar mais nada.  

É por esses e outros erros que Fate: A saga Winx teve um hype que não mereceu e uma renovação que não precisava. Mas vamos torcer para que os equívocos sejam reparados, afinal como dizia Hannah Montana “Todo mundo comete erros”, porém, é bom lembrar que “errar três vezes é burrice” ou melhor desleixo. 

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Para todos os garotos: Agora e Para Sempre é mais doce que o doce de batata doce

Peter Kavinsky e Lara Jean estão mais grudados do que nunca em Para Todos os Garotos: Agora e Para Sempre. LJ troca as cartas de amor por aplicações para as universidades e está ansiosa para o futuro perfeito que planejou com Peter.

Foi nessa premissa que a Netflix resolveu apostar para fechar a trilogia mais coração quentinho do serviço de streaming. Afinal, por que não deixar um clichê mais adoçado ainda? Não que seja algo ruim, há dias que estamos com desejo de coisas açucaradas.

Lara Jean olhando para um templo na Coreia do Sul.
Foto: Reprodução

 Mas, já dizia um velho ditado: tudo demais é veneno. Nem todos os clichês adolescentes precisam ser sobre relacionamentos ansiosos demais com o dia de amanhã.  Tudo bem que o drama é típico dessa fase, porém, ele pode ser motivado por outros aspectos como é mostrado ao longo do livro que deu origem a esse filme. 

 Como toda boa adaptação da Netflix, a produção foge da narrativa original e prefere focar as decisões e vivências de Lara Jean em Peter. Não se preocupe, não irei fazer comparações com a obra ainda. Seria injusto demais, irei me deter somente ao longa aqui. 

Lara Jean, Margot, Kitty e o pai delas procurando o cadeado que a mãe delas deixou na ponte dos cadeados em Seoul.
Foto: Reprodução

Diferente do segundo filme, que é um amontoado de acontecimentos sem conexão, o terceiro consegue se manter interessante como um clássico que fez parte da nossa infância nos anos 2000. Entendemos o lugar de Lara Jean, porque, um dia nós estávamos ou nos imaginamos nele. No entanto, não tem nada de inovador, é só mais um clichê adolescente. 

Para todos os garotos: Agora e Para sempre é um filme confortável, para ver depois de um dia complicado com um baldão de pipoca e uma boa panela de brigadeiro. 

Lara Jean e Peter Kavinsky no último baile da escola.
Foto: Reprodução

A trilha sonora, para variar, é incrivelmente boa e essencial para o tom do filme. É surreal o modo como foi cirurgicamente escolhida para cada parte do longa, desde o kpop na viagem à Coreia do Sul até a música tema do casalzinho. Além da fotografia, que nos dá sensação de total imersão no mundinho LJ e PK. 

Os tons pastéis são um dos ingredientes principais desse clichê perfeito. A paleta usada ajuda a manter tudo leve e agradável, mesmo nas partes tristes. 

Infelizmente, não fez jus ao último livro, que considero um dos melhores, apesar de trazer algumas falas da obra. Ainda assim, conseguiu captar uns 10% da essência (me agarrei a isso) e me fez chorar no final com a fofura extrema de Covinsky. 

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É série ou novela? Resenha de Jane, a virgem

Quando Eduarda Porfírio Costa tinha 21 anos e um mês ela resolveu começar a assistir a série Jane, a virgem. Eduarda estava precisando ver uma produção de qualidade, que deixasse seu coração quentinho, e ajudasse ela a não sentir tanta falta do namorado durante a quarentena. Já contavam seis meses que não via o amado. 

A história de uma mulher de 25 anos ainda virgem, por razões religiosas, que engravida devido a uma inseminação artificial feita acidentalmente lhe pareceu perfeita. Em poucos dias ela mergulharia na realidade de Jane Gloriana Villanueva, sendo instigada a cada suspense deixado no fim de um episódio. Era como assistir uma versão latina-estadunidense de Avenida Brasil, mas com acontecimentos mais doidos e reviravoltas muito criativas. E a jovem não precisou se preocupar em se perder no meio de tanta coisa, porque tinha sempre um narrador para situar ela. 

Xiomara, Jane, Alba e Mateo sentados na frente da casa de Alba na série Jane, a virgem
Foto: Reprodução

O clima de novela da série a ajudava a se sentir mais aconchegada, ainda que assistisse legendado, a trama poderia facilmente se passar no Brasil, senão fossem as referências constantes aos países vizinhos da América Latina e as questões de imigração. A relação tão próxima entre Jane, Alba, Xiomara e mais tarde Rogelio, poderia ser encontrada em qualquer lar periférico das terras tupiniquins. 

A protagonista ainda conseguia fugir dos estereótipos que Eduarda estava acostumada a ver em outras produções que traziam mulheres latino-americanas. Não demorou para que a jovem adulta se identificasse de cara com a organização de Jane, além do amor pelos livros de romance e a religiosidade da personagem, mesmo que fosse católica. Jane também inspirava muito Duda a escrever, quando estava na frente do computador dando lugar a sua imaginação fertil. 

Casamento de Jane e Michael, na foto Jane, Alba e Xiomara
Foto: Reprodução

Esse conjunto de elementos foram fundamentais para prender a atenção de Eduarda ao longo das três primeiras temporadas, quando a busca do traficante Sin Rostro tinha sido deixada de lado. 

As coisas parecem finalmente estar se encaixando e a trama se encaminhando  para o desfecho perfeito, contudo, a morte de Michael deu outro tom à narrativa. Algo bem diferente do que Eduarda estava acostumada, mas, de igual qualidade. A série se aproximava cada vez mais da realidade, abordando a situação de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, sexualidade e transtornos mentais. 

Petra e jane Ramos
Foto: Reprodução

A quinta temporada e última, por outro lado, se perdeu no meio do caminho. Ao tentar trazer o final ideal, com todos os personagens preferidos do público, acabou repetindo o mote do início. No entanto, dessa vez, o triângulo amoroso Jane, Rafael e Michael se tornou chato e enfadonho, para Eduarda foi um dos piores fan service que já viu. 

Alguns aspectos importantes da trama foram deixados de lado e tratados de forma muito superficial para Eduarda. Em contrapartida, ela gostou das críticas que a produção fazia ao governo Trump e a sua política contra os imigrantes.

Jane e Mateo
Foto: Reprodução

Se ela pudesse voltar atrás, teria ficado na terceira temporada, quando as coisas dão certo e o final feliz ocorre como ela queria. Porém, Eduarda não pode deixar de dar o crédito à última reviravolta, que não conseguiu prever nem de longe. Mas, se você quiser saber, terá que assistir. 

Ainda assim, Eduarda não se arrepende das horas que gastou aos domingos maratonando Jane, a virgem para relaxar após uma semana cansativa. Ela não chegou a chorar, entretanto, vibrou ao perceber o crescimento dos personagens ao longo dos episódios, até mesmo da fria Petra e do insuportável Rafael, que ao fim se tornou tolerável (pelo menos, para Eduarda).

Jane, a virgem tem cinco temporadas e está disponível na Netflix. 

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Conheça o Token: o estereótipo racial favorito dos filmes teens

Token ou tokenismo é o termo usado quando realizam a inclusão superficial de minorias sociais nos espaços em que elas não são presentes. Para simplificar, é quando cumprem a famigerada cota negra, a fim de dizer que o lugar é diverso o suficiente. 

A palavra “Token” significa símbolo em inglês, surgiu pela primeira vez em um artigo publicado por Martin Luther King em 1962, no qual ele dizia: 

A noção de que a integração por meio de tokens (símbolos) vai satisfazer as pessoas é uma ilusão. O negro de hoje tem uma noção nova de quem é.

Geralmente, a definição é tema em assuntos relacionados a Marketing e empresas que contratam uma ou duas pessoas pertencentes a minorias para dizer que prezam pela diversidade. Mas essa prática é também uma imagem de controle usada por Hollywood para que as produções tenham alguma  “representatividade”, principalmente pelas comédias teens mais famosas como High School Musical e Meninas Malvadas. 

Para fechar as discussões do Novembro Negro com chave de ouro, trouxe alguns casos de tokenismo em quatro comédias teens populares. 

Se liga: 

Taylor McKessie – High School Musical 

Taylor McKessie (Monique Coleman) em cena de High School Musical com Gabriela Montez (Vanessa Hudgens)
Foto: Reprodução

Você deve se lembrar dela como a melhor amiga da Gabriela Montez (Vanessa Hudgens), porque foi reduzida a isso em toda trama. Apesar de ter uma personalidade forte, divertida e sonhadora (a garota queria ser presidente dos Estados Unidos!) Taylor (Monique Coleman) teve uma participação mínima nos três filmes, sendo reduzida a fiel escudeira da protagonista branca. 

Eu sempre amei High School e me via muito em Taylor, mas o modo como ela foi retratada no filme me dava a impressão de que na vida real era da mesma forma. Por mais que me esforçasse, quisesse grandes coisas e corresse atrás, as meninas brancas sempre seriam as primeiras em tudo. Quer fosse na escolha dos meninos bonitos ou nas vagas de emprego. 

Gretchen Wieners – Meninas Malvadas 

Cena de Meninas Malvadas
Foto: Reprodução

A criadora da melhor gíria possível “Isso é tão barro!” só conseguiu o destaque merecido com os memes, anos depois do lançamento do filme. Não conhecemos muito da história de Gretchen (Lacey Chabert), ela nos é apresentada somente como o braço direito de Regina George (Rachel McAdams) e como alguém que gosta de ter um certo status social. 

A profundidade da personagem vai além disso, Gretchen representa a solidão da mulher negra quando era facilmente deixada de lado pela rainha abelha do grupo, mesmo sendo considerada uma de suas melhores amigas. É só reparar quando Cady(Lindsay Lohan) conquista a confiança de Regina, Gretchen logo é mandada para escanteio. A amizade de Regina George significa tanto para ela, que a adolescente literalmente surta quando perde a atenção dela. 

Gretchen transmite o lugar que eu tinha na vida das minhas melhores amigas brancas, eu sempre tinha que arranjar tempo para os problemas delas, ser compreensiva. No entanto, elas nunca tinham tempo ou ouvidos para mim. 

Dionne Davenport – As patricinhas de Bervely Hills 

Dionne em cena de As Patricinhas de Bervely Hills
Foto: Reprodução

Quando as pessoas pensam em As patricinhas de Bervely Hills, pensam no terninho amarelo icônico de Cher (Alicia Silverstone), mas eu só consigo pensar nos chapéus enormes de Dionne (Stacey Dash). Talvez, você não se lembre dela, mas a garota tinha um gosto fashion tão maravilhoso quanto o de sua melhor amiga branca. 

Assim como as outras figuras citadas, não temos muito conhecimento sobre o contexto de Dionne, quais são os seus sonhos, gostos musicais ou porque ela gosta tanto de chapéus gigantes. Ela é a parceira de Cher e ponto. 

A boa notícia é que esse cenário será revertido no reboot de As patricinhas de Bervely Hills em que Dionne será a protagonista. A produção estreará em breve no Peacock, serviço de streaming da NBC Universal. 

Fareeda – Crush a altura 

cena de Crush à Altura
Foto: Reprodução

Você provavelmente nem lembra quem é ela, mas Fareeda (Anjelika Washington) me marcou muito no filme Crush à Altura com a fala: “Quando é que vocês terão tempo para os meus problemas?”, que é dita em desabafo por estar cansada de ter os ouvidos alugados pelos dois melhores amigos brancos. Fareeda representa o auge do Tokenismo aqui, não somos apresentados nem ao seu sobrenome dela na trama. 

Além do estereótipo racial, essas quatro personagens têm a solidão da mulher negra em comum. Em todas as narrativas, elas são deixadas de lado em algum momento ou levadas a acreditar que não são tão importantes quanto seus amigos brancos. Token é uma imagem de controle amplamente usada pelas produções audiovisuais hollywoodianas que chegam aqui e nos fazem acreditar que não podemos ser o personagem principal de nossas histórias. Quando não só podemos, como devemos. 

Fonte: Politize 

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Quando me descobri negra

Não foi em um dia específico em que me olhei no espelho e pá: sou negra. Nem corri para as margens de um riacho sujo da cidade para gritar: Negritude ou Morte! A verdade é que, bem lá no fundo sabia que sou preta. Só não tinha coragem suficiente para admitir e falar isso em voz alta.

Antes de me dar conta da minha cor de pele (e do peso sócio-histórico dela) já recebia pistas da minha tonalidade. Por mais que minha mãe tentasse me proteger sob o título de parda, a sociedade apontava na minha cara de forma bem mal educada a minha negritude. Mesmo que eu fosse lesada demais para perceber.

Os insultos às vezes eram ditos explicitamente: falavam que meu cabelo era de bombril ou pixaim, que meu nariz era de batata e sussurravam sobre meus joelhos encardidos, acreditando que eu não estava ouvindo. As ofensas também eram proferidas sob a forma de piada, me chamavam de soim com a desculpa de que era um animal fofo, portanto, seríamos parecidos, quando ficava escuro na sala de aula perguntavam onde eu estava ou se tinha me camuflado.

Eu até ria para não me sentir de fora, para mostrar que aquilo não me atingia. Afinal, me considerava parda, os xingamentos não eram comigo, não fazia sentido que fossem.

As agressões também se manifestavam nos olhares silenciosos que me acusavam de nascer da cor “errada”, por isso eu era uma pobre coitada. Eles me diziam que eu era feia, esquisita e por mais que tentasse, nunca seria tão bem sucedida quanto meus colegas brancos. Eles me falavam que eu estava sempre correndo o risco de repetir os erros dos meus e acabar drogada e grávida.

Para eles, a mim cabia somente encurvar os ombros, olhar para baixo, dizer sim senhor, não senhor e NUNCA QUESTIONAR O STATUS QUO. Porque as coisas funcionam de um certo modo, que não pode ser mudado para o equilíbrio da sociedade

O despertar veio em algum momento do meu segundo semestre da faculdade, enquanto fazia um trabalho sobre racismo e futebol. As peças começaram a se encaixar e de repente, minha vida passou a fazer mais sentido. Percebi que toda a solidão que sentia não era à toa, a branquitude faz de tudo para nos deixar à margem.

A falta de referências pretas no balé, a desestruturação da família, a baixa autoestima, tudo estava (e está) conectado ao racismo velado que sofri (e sofro) ao longo da vida. Me aceitar negra foi um processo doloroso, mas acalentador quando vi que não estava sozinha. Tenho irmãos e irmãs que compartilham das mesmas dores, alegrias, ancestrais, histórias. Por eles, por mim, pelas futuras gerações é que vale a pena continuar a luta.

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5 Autores negros brasileiros para você conhecer e ler

Uma das minhas metas literárias deste ano é ler livros de autores pretos, por uma necessidade de ter personagens e histórias com quem posso me identificar de fato, além de perceber que não conhecia muitos escritores negros que contribuíram tão ricamente para a nossa literatura.

Por isso, não podia deixar de trazer uma lista com alguns escritores nacionais que possuem obras incríveis.

Se liga:

Lu Ain-Zaila

Escritora Lu Ain-Zaila
Foto: Arquivo Pessoal

Considerada a maior voz do afrofuturismo brasileiro, a escritora carioca é responsável pela primeira série futurista nacional: “Brasil 2408”, composta pelos livros “(In)Verdades” e “(R) Evolução”. A autora também escreveu a antologia “Sankofia: breves histórias afrofuturistas” e “Ìségún”, romance lançado em 2019.

Fabio Kabral

Escritor Fabio Kabral
Foto: Divulgação

É a maior referência de afrofuturismo no Brasil ao lado de Lu Ain-Zaila. O autor é responsável pelo universo de Ketu 3, uma metrópole governada por sacerdotisas empresárias e tecnologias fantásticas movidas por fantasmas. O cenário serviu de pano de fundo para “O caçador cibernético da rua 13” e “A cientista guerreira do facão furioso”. Atualmente está trabalhando na sequência desse universo. 

Conceição Evaristo 

Escritora Conceição Evaristo
Foto: Reprodução

Criadora do termo “Escrevivência”, definido como ato de por no papel as suas vivências, Conceição Evaristo publicou seus contos e poemas pela primeira na série Cadernos Negros nos anos 1990. A escritora procura trazer a realidade do povo negro em suas obras, como em Ponciá Vivêncio, Becos da Memória e Insubmissas Lágrimas de Mulheres. 

 Carolina Maria de Jesus 

Carolina Maria de Jesus escrevendo
Foto: Divulgação

Conhecida por seu romance diário Quarto de Despejo, o qual retratava o seu cotidiano na favela do Canindé no Rio de Janeiro, a catadora de papéis foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas na década de 1950. Apesar do pouco estudo, Carolina era uma leitora voraz, segundo contam seus filhos. Depois de quarto de despejo,  publicou mais três livros: Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome, Provérbios. O Diário de Bitita e Antologia Pessoal foram lançados após a morte dela. 

Jarid Arraes  

Autora cearense Jarid Arraes
Foto: Divulgação

Natural de Juazeiro do Norte no Ceará, Jarid é cordelista, poeta e escritora. Venceu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes com o livro Redemoinho em dia quente na categoria contos/crônicas, Um buraco com meu nome e As lendas de Dandara. Tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel, incluindo a coleção Heroínas Negras na História do Brasil. 

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Ausências

Minha mãe morreu em uma sexta-feira de abril, talvez a primeira ou a segunda do mês. Só lembro exatamente qual era o dia da semana porque, na tarde seguinte estaria mandando uma mensagem ao professor de balé para justificar a minha falta no ensaio. A notícia chegou a noite, logo depois de Gustavo – meu namorado – ir embora. 

Era nosso mêsversário, acho que três meses de relacionamento, celebramos do jeito mais adolescente e simples possível: com um filme qualquer do nosso gosto que estava passando na televisão e muitos amassos. Pertinho das 22 horas, a minha mãe de criação veio ao meu quarto para dizer que a minha mãe de sangue havia morrido. 

Não sabia como devia me sentir sobre essa situação, ficar triste seria o mais lógico a se fazer. Pelo menos foi isso que o abraço de Gustavo me demonstrou quando ele apareceu no portão da minha casa tarde da noite. O rapaz não demorou em vir me socorrer assim que contei do acontecido por mensagem. Mas eu não conseguia me sentir mal com isso, apenas confusa. 

Como deveria me comportar diante da ausência permanente de quem sempre esteve ausente na minha vida? E de repente, me vi na obrigação de ficar triste de algum modo, embora não conseguisse de fato. As pessoas esperavam isso de mim, afinal, a mulher que me gerou havia morrido. 

Percebi isso quando meu professor de balé me ligou na tarde do dia seguinte, depois de eu dizer a razão da minha ausência no ensaio, e nas mensagens que recebi de outros colegas bailarinos que nem tinham intimidade comigo. Eu deveria estar sofrendo muito, segundo o ponto de vista deles. 

E a sensação se agravou nos olhares de pena que recebi no cemitério. A princípio, eu nem iria ao velório, porque odeio esse tipo de evento. Resolvi ir de última hora, como se devesse isso a ela, sabe? Por um momento me arrependi, eu não conseguia sentir nem 1% da solidão que a minha bisa, que a criou, estava vivenciando. 

Me sentia a pessoa mais errada do mundo, não que aquilo não doesse de alguma forma. Lembro de ter derramado poucas e silenciosas lágrimas no fim do enterro, me dando conta que dessa vez ela tinha partido para sempre. 

Ser filha de pais ausentes é se acostumar com a falta deles, vira uma rotina estranha e socialmente aceitável. Muitas questões foram usadas para amparar a não presença deles na minha vida: a idade em que se tornaram pais, dinheiro insuficiente, o vício em substâncias químicas, etc. No entanto, ninguém teve coragem de dizer a verdade, eles são egoístas, e falo dos meus aqui, preguiçosos e queriam viver a vida deles. Sem tempo para se esforçar por uma criança. 

Não estou esquecendo todos os outros fatores que os circundam e tornam a tarefa de criar alguém mais complicada, como a dificuldade de ser um homem e uma mulher negra nesse país, a falta de privilégios, o recorte de classe. Porém, nem isso justifica a ausência cruel de afeto a que submeteram seus filhos. 

Então, senti um alívio ao saber que ela não voltaria mais. Porque dessa vez não teria que encarar mais as expressões de pena disfarçadas quando perguntavam sobre a minha mãe biológica. Porque dessa vez eu não seria mais uma filha de uma mãe ausente, mas de uma mãe morta e isso não me doía. 

Não me tome por insensível, caro leitor. Foi muito pior na época em que ela sumiu por quatro anos sem sequer dar sinal de vida, deixando meu irmão caçula conosco (eu e meus pais de criação). Me chateava muito não ter uma relação próxima com ela, como as minhas amigas pareciam ter com as suas mães. Ficava mais triste ainda em saber que ela preferia que eu fosse modelo em vez de bailarina e nunca tivesse me visto dançar. 

Qualquer que fosse o motivo da ausência, cabia a mim como filha entender e aceitar. Recebê-la de braços abertos quando ela aparecia, dizer eu te amo e que ela era a melhor mãe do mundo. Tinham me criado assim, eu era a sortuda por ter dois pais e duas mães. 
Sempre achei engraçado isso sobre nós filhos de pais ausentes. Somos criados para ser os super heróis da narrativa, o ponto fora da curva. Deveríamos sempre dar a outra face, contudo, ninguém diz como isso cansa.

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Conheça 10 curiosidades sobre Floribella

Depois de ser adiada várias vezes, a novela Floribella voltou a ser exibida pelo canal Bandeirantes em 15 de setembro, como comemoração aos seus 15 anos. Transmitida entre 2005 e 2006, a produção foi responsável por alavancar o índice de audiência da emissora, alcançando 7 pontos segundo ibope, que parece não ser muito, mas chega perto do nível atingido pela Globo quando exibe futebol nas manhãs de domingo. 

A trama marcou a infância de muita gente, inclusive a minha. Afinal, a primeira referência comunista a gente não esquece (risos). Por isso, quis trazer uma lista com 10 curiosidades sobre a novela da Florzinha. 

Bora lá, pipoquinhas!  

  1. A Maria Flor (Juliana Silveira), protagonista da narrativa, tinha um jeito de se vestir tão peculiar que lançaram o tênis especial da Floribella. O calçado chegou a vender 415 mil pares.

Juliana Silveira como floribella
Foto: Divulgação

2. Além de ser exibida pela Band, a novela teve as duas temporadas reprisadas pelo Disney Channel nos anos seguintes (2007 a 2009). 

Miley Cyrus drawing disney channel's symbol
Gif: Buzzfeed

3. A Florzinha vendeu 55 mil cópias do primeiro disco da novela em apenas 45 dias. E olha que a Juliana Silveira nem era cantora hahahah 

Primeiro disco da Floribella
Foto: Enjoei

4. A história é baseada no musical A noviça Rebelde e no conto da Cinderella 

Foto: Reprodução

5. A trama original é argentina, criada por Cris Morena (responsável pelo original de Rebelde também) com o nome de Floricienta. A novela também ganhou uma versão portuguesa, chilena e colombiana

Elenco de Floricienta, a novela argentina que deu origem a Floribella
Foto: Divulgação

6. O nome Floricienta é resultado da mistura entre Flor com Cenicienta, como a Cinderella é chamada em castelhano, idioma oficial da Argentina 

Novela Floricienta
Foto: Divulgação

7. Patrícia Moretzsohn, responsável por adaptar a novela para as terras tupiniquins, escreve Malhação para a Globo desde 1995.

Patrícia Moretzsohn, teledrramaturga da Globo
Foto: Divulgação

8. Alerta spoiler (Se você não gosta, pule essa curiosidade): Inclusive, Patrícia não queria que Frederico (Roger Gobeth) morresse no fim da primeira temporada, como no original, porque o público shippava muito o casal Florizer

Maria Flor  e Frederico se beijam acidentalmente na chuva na novela Floribella
Foto: Reprodução

9. A química entre Roger Gobeth e Juliana Silveira foi tanta que eles chegaram a ficar noivos fora das telas. Mas em 2009, o romance chegou ao fim

Roger Gobeth e Juliana Silveira na novela Balacobaco da Rede Record
Roger Gobeth e Juliana Silveira na novela Balacobaco (2012) da Rede Record. Foto: Reprodução

10. Maria Carolina Ribeiro, a vilã Delfina, também fez teste para o papel da Maria Flor 

Delfina e Maria Flor na novela Floribella, da Band
Foto: Reprodução

E aí, conhecia alguma dessas curiosidades? Me conta nos comentários!

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A minha vizinha Noélia

Conheço dona Noélia desde me entendo por gente. Era ela uma senhorinha que parecia ser bem frágil, pele muito retinta e expressões que denunciavam experiências que ninguém poderia imaginar. Mas a vizinhança a identificava por seus gritos,  já presentes de manhã cedo. Eram um sinal de que o dia na travessa começava, antes mesmo do galo, dona Noélia gritava por seu neto: “Oh Mauroooo!” 

E ele já lhe atendia o chamado da forma mais gentil possível: “O que é? Me deixe dormir! Ainda está cedo demais! Todo dia isso, p*ta que p*riu!” A seguir os cachorros latiam famintos por café, que nem dona Noélia e a filha mais velha, Carol, podiam dar. 

Era um dilema que ninguém entendia. Trazer os vira-latas da rua e dá-los um lar parecia o mais lindo dos gestos, entretanto, a família não tinha condições de prover o necessário para os bichinhos. Não fazia muito sentido a caridade, teria sido melhor deixá-los na rua à mercê do destino. 

Carol, no entanto, não conseguia se segurar diante do ímpeto de ser solidária. Com um jeitinho ia dando conta, claro que um cachorro ou outro ia comendo um dos gatos que ela tinha – porque a mulher gostava de todos os animais. Mas, depois de chorar, gritar ao mundo a tragédia e bater no pobre cãozinho, ela seguia a vida e quando podia, acolhia mais um canino. 

Dona Noélia não gostava, porque eles sempre estavam tentando morder ela. Porém, não achava que a culpa fosse deles ou da falta de ração, mas, do demônio. De quem mais seria? Ao longo do dia, era possível escutá-la expulsando-o de sua residência: “Eu não aceito você na minha casa! Saia em nome de Jesus!”

Era ela mulher muito crente, devota de Edir Macedo. Não podia faltar um culto na congregação principal do centro caótico de Fortaleza. Admirava muito isso em Noélia, o fato dela não precisar de ninguém para resolver suas coisas. Saia pelo bairro e para além dele, ia ao médico, a feira, pegava o ônibus certinho, ainda que estivesse a visão prejudicada. Atravessava a rua sem nem olhar para os lados, os carros se quisessem que parassem. 

Quando a encontrava por seus caminhos, em raros momentos, gostava de conversar com ela. Não precisava de muito para fazer Noélia tagarelar sobre qualquer coisa e com muito bom humor, bastava perguntar sobre o que ela estava indo fazer e pronto. Seguia a viagem toda falando sobre esse assunto e outros que surgiam.  

Bem diferente do que a ouvia gritar no dia a dia. Parecia que a senhora ao sair, conseguia a liberdade e a felicidade que não encontrava no lar. 

Contudo, o escape foi tirado de Noélia de repente. A memória era cada vez mais vaga e a filha passou a trancá-la na residência que morava. Era isso ou a senhora poderia ficar na rua para sempre. Ninguém se preocupou em perguntar o que Noélia queria de fato. 

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Itaewon Class acerta a receita com ingredientes ácidos e tradicionais

Itaewon é conhecido pela badalada vida noturna, pela gastronomia diversa e presença massiva de estrangeiros. É nesse bairro boêmio de Seul que Park Sae-ro-yi (Park Seo Joon – O que houve de errado com a secretária Kim) resolve realizar o sonho do falecido pai e abrir o próprio bar, o Danbam. Os obstáculos, no entanto, serão inúmeros para que Sae-ro-yi e sua equipe consigam um espaço no mercado.

O dorama baseado na webtoon Daum me cativou desde o primeiro episódio, quando percebi que tinham figurantes negros no elenco. Pode parecer besta, entretanto, na minha curta vida de dorameira sei como a diversidade não é pauta desse tipo de produção.

Cena do segundo episódio de Itaewon Class
Foto: Reprodução

Mas, deixando os detalhes técnicos de lado, a trama da série da JTBC reproduzida pela Netflix chama atenção ao quebrar o padrão das narrativas dos kdramas convencionais. Apesar de existirem diversos tipos de dramas – românticos, gastronômicos, ação, fantasia – nenhum deles aborda tantas questões sociais como Itaewon Class com uma boa dose de romance ainda.

Racismo, xenofobia e transfobia são as problemáticas retratadas na produção com o protagonismo de Kim Toni(Chris Lyon – Miss and Mrs Cops) e Ma Hyun Yi (Lee Joo-Young). Assuntos até então pouco abordados no entretenimento sul-coreano, já que o próprio país é bem conservador.

E diferente do que se espera, a série consegue trazer esses temas de forma profunda e sensível, sem cair em estereótipos com os quais estamos acostumados a ver na grande mídia nacional e internacional.

Itaewon Class
Foto: Reprodução

As histórias dos dois personagens e o seus panos de fundo são inseridos aos poucos na narrativa, sem destoar da trama principal, de modo que o DanBam se torna um porto seguro para eles.

Toni é filho de uma ganense com um sul-coreano, ele vai para a Coréia do Sul a fim de encontrar o pai desaparecido. Entretanto, por causa de sua cor não é considerado sul-coreano. O rapaz é impedido de entrar na boate com seus amigos, por ser nativo do continente africano, revelando a xenofobia presente na sociedade sul-coreana.

Além disso, os próprios amigos dele o tratam como um estrangeiro, o que deixa Toni incomodado. É interessante porque a trama não se prende a um só tipo de manifestação do racismo, sendo um aspecto que enriquece ainda mais a história.

Já Hyun Yi tem que lidar com a transfobia velada dos amigos, que ficam bem chocados ao descobrir que ela é uma mulher transgênero. O constrangimento é tamanho que se torna inconveniente ao espectador – pelo menos me senti incomodada – vendo ela sofrer com aquilo.

Mesmo com o inoportuno embaraço dos amigos e colegas de trabalho diante de Tony e Hyun Yi, esses personagens apresentam um crescimento notável durante os episódios, mostrando que estamos em eterno processo de desconstrução, quando nos mostramos abertos a isso.

Choi Seung (Ryu Kyung-soo), Ma Hyun Yi (Lee Joo-young) e Park Seo-ro-yi em Itaewon Class
Foto: Reprodução

O personagem principal Sae-ro-yi não é ofuscado por essas problemáticas. Ele me lembrou um pouco o protagonista de outro drama, o Seo Poong (Jun-ho) de Wok of love. Diferente de Poong, Sae-ro-yi tem mais tempero devido a todas as dificuldades que passa para conseguir alcançar seus objetivos.

Enquanto Poong tem sua vingança motivada por causa de uma traição, Sae-ro-yi vê o pai ser demitido injustamente e morrer em um terrível acidente sem ser socorrido. A tragédia motiva o rapaz a seguir o sonho do pai, ainda que haja uma pedreira inteira no caminho.

A meritocracia entra em xeque na trama, salientando que apenas o esforço individual não resolve muita coisa. Mas, uma equipe compromissada a fazer acontecer, junto com recursos e contatos, mudam o cenário. A série também é um prato cheio para quem gosta de conceitos relacionados ao Marketing.

Park Seo-ro-yi e Jo Y-seo em Itaewon Class
Foto: Reprodução

Outro destaque da produção é a fotografia, ela é íntima e explora os ângulos de forma a nos imergir cada vez mais na narrativa. Em algumas cenas se torna até desconfortável, porém, agrega muito à qualidade do kdrama.

A única falha no mis en place de Itaewon, foi a escalação de uma atriz cis para o papel da personagem trans. Contudo, é de esperar que isso aconteça, dada a natureza do entretenimento sul-coreano.

Itaewon class está disponível na Netflix, são 16 episódio com duração de 1 hora em média.