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Amiga de bater ponto

Era uma relação estranha, quando parava para pensar sobre. Não sei explicar o porquê, mas existia algo que nos conectava ao mesmo tempo que nos distanciava. Sempre acreditei que a culpa desse abismo entre nós era minha. Afinal, sou uma especialista em construir muros por causa dos meus traumas passados, por isso achava que não era capaz de me abrir para aquela amizade. 

Então, decidi tentar mais. Encontrei pontos em comum nos problemas e situações ruins que enfrentamos durante o ensino médio. Não havia sido muito difícil, nós duas sofremos com comentários maldosos por parte de nossos colegas escrotos, machistas e racistas. Eu era tida como feia, burra e alvo frequente de piadas racistas, ela, uma menina branca padrão, era constantemente sexualizada, sofria assédios sexuais com palavras e gestos, além de ter tido fotos íntimas vazadas. Confesso que me sentia de certa forma culpada por essa época, já que fui conivente com alguns insultos, mas já havia me desculpado pelas minhas atitudes. Embora, ela nunca tenha feito o mesmo por todas as vezes que me diminuiu.

Gostava de pensar em mim como uma pessoa tranquila e boa até, por isso, preferia deixar o passado no lugar dele. Escolhi seguir em frente e fazer uma amizade de escola perdurar, assim, não parecia que foi um momento tão ruim quanto realmente foi. E ela também parecia se esforçar. Nos aniversários fazia questão de dar um presente especial, mesmo que ficasse monotemática e só falasse da minha futura profissão. Também fazia questão de ir a todos os meus espetáculos de dança, se tivesse cortesia, claro. 

Nós não saíamos muito, era verdade. Uma vez fomos ao cinema, porém não me senti nem um pouco à vontade, entretanto, achava que era por ser a primeira vez que saímos juntas. Mas, com a pandemia, ficamos mais próximas. Ela adorava dar dicas de como eu poderia fazer minha loja de roupas ter mais clientes, embora não comprasse nada e não indicasse meu negócio para ninguém do seleto círculo de amizades de quem se gabava. 

Admirava muito ela. Sempre muito criativa e sociável, ainda que reclamasse que as pessoas não a entendiam muito. Constantemente era lida como arrogante, contudo, acho que era problema de criação. Mas, poucos tinham acesso ao lado legal dela, que tinha prazer em conversar sobre tudo, tomar muito café e dizer o quanto estava ansiosa sobre os rumos do futuro. 

Mas esse encantamento não era suficiente, não para ter certeza de que o sentimento fraterno que tínhamos uma pela outra era recíproco na mesma medida. Talvez um dia tenha sido, no passado como no dia em que ela desabafou em seu carro comigo sobre como Marchisio, um ex-ficante, ainda a perseguia. 

A sensação para mim era que nossa amizade era uma obrigação para ela. Via isso nas conversas, em como pisava em ovos com ela, diferente da relação que tenho com minhas outras amigas. Me entristeceu profundamente quando percebi, mas, acalmei o coração porque sabia que tinha feito o que podia. Em algum momento nossa amizade virou um emprego. 

Mas, depois de tanto desgaste emocional, palavras sem noção e olhares não ditos, cansei e finalmente pedi demissão. Já bastava ter que bater ponto diariamente no trabalho. A vaga de amiga negra estava novamente disponível.

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8 de abril

No último 8 de abril, a sua partida completou seis anos. Naquele dia, após comemorar três meses de namoro, recebemos uma ligação informando que você não estava mais entre nós. A notícia só confirmou um pressentimento que eu tinha há mais de um mês, desde a sua última visita. E eu não sabia como me sentir, porque me acostumei com sua ausência. O que não significa que nunca doeu, só me habituei a sentir a dor. 

Mas no último 8 de abril ela latejou, de um jeito que não acontecia há anos. Talvez seja porque estou fechando mais um ciclo e você não está aqui. Pesou em mim, saber que você não vai ver a primeira da família a se formar na faculdade. Tudo bem que não é a carreira que você gostaria, assim como papai talvez quisesse que eu tivesse escolhido de Direito no lugar de Jornalismo. 

Contudo, gosto de imaginar que estaria feliz. Iria querer participar das fotos de formatura, faria piadas, me ajudaria a me maquiar, me daria algum chocolate e no fim falaria o quão orgulhosa está. Embora eu sempre acreditasse que nunca fui a filha que a senhora quis por causa das nossas personalidades tão diferentes. O engraçado é que só nos últimos anos descobri os nossos pontos em comum e lamento não poder dividir isso com a senhora. 

Sinto sua falta todos os dias mamãe. Sempre senti, mesmo quando ainda estava entre nós. Porque nós tínhamos tão pouco tempo juntas, ainda que entendesse a razão da senhora não poder se fazer presente. Doía ver as outras crianças tendo suas mães por perto de forma fácil, enquanto eu só via a senhora nos finais de semana, por duas horas. Até que você foi sumindo, sem nem me dizer um motivo. 

Só lembro quando reapareceu para dizer que estava esperando meu irmãozinho. Era natal, tinha acabado de chegar do culto, quando nós te encontramos na outra rua. Recordo-me de ter ficado feliz, porque a partir dali passamos a nos ver com mais frequência. A senhora voltou a morar com a gente e por um momento, quase acreditei que poderia ter uma família como a dos outros. Era o que eu mais queria. 

E eu desejava com tanta intensidade que, ao perceber que jamais teria embarquei em uma das fases mais obscuras da minha vida. Acho que a senhora não imaginava o quanto a sua ausência e a do papai me frustrava, ao ponto de querer desistir da minha própria vida. Porém, graças a minha outra mãe, àquela que a senhora nunca quis que tivesse esse título, fui tratar essas feridas no momento que foram abertas. 

Então, a senhora sumiu de novo. Com adeus, mas dizendo que voltaria. Só não falou que isso demoraria quatro longos anos que foram suficientes para uma raiva se acumular. Eu compreendo hoje todas as suas dificuldades como mulher negra para sobreviver e dar afeto, mas isso não impediu de abrir as feridas que estavam cicatrizadas em mim. Foram incontáveis os dias em que chorei com saudade de você e amaldiçoei seu nome, por desistir tão fácil da gente. 

O seu retorno foi tão repentino quanto a sua partida. Se soubesse que era a última vez, teria me esforçado para dizer como me sentia, pedir desculpa e falar eu te amo. Entretanto, fico feliz de ter conseguido desejar coisas boas, porém, me assustei com a senhora me devolveu um olhar aflito cheio de água. 

Depois de ouvir algumas histórias, o pressentimento veio a mim. Ao mesmo tempo que torci para que não se realizasse, pensei que talvez fosse o melhor para a senhora. Já que estava passando por tanto sofrimento. Gosto de imaginar que está em um lugar melhor. 

Deve estar feliz que o Davi puxou sua aparência e personalidade, sendo um completo insuportável. Provavelmente está preocupada com a falta de interesse dele nos estudos. Mas, não se preocupe, estamos fazendo o melhor por aqui para que ele cresça tão bem quanto eu. Talvez não se torne doutor como a senhora sempre sonhou, porém, acredito que ele será uma pessoa boa. 

Ah, antes que pergunte, ainda não me casei e não sei quando isso irá acontecer. É isso, feliz dia das mães.

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Poema Apático

Não gosto do escuro
Ele me faz sentir coisas que não aparecem na luz
Sensações que doem tanto
A ponto de amargar o estômago 

Prefiro esconder tudo
O que é fácil na sombra gerada pela claridade 
Como arrastar a poeira para debaixo do tapete
Até que um dia não dê mais 

E eu exploda, dentro de mim mesma
Condenada à tristeza de ser quem sou
Fadada ao fracasso e à fadiga
Que é viver quando se nasce da cor "errada" 

Quando não se vem de uma família abastada
O esforço não é suficiente para crescer na vida
O salário não é suficiente para suprir ao básico
E a necessidade vira a causa de uma crise de ansiedade

Prefiro ser apática
Do que sentir o medo de não conseguir ser 
O que meus pais tanto sonharam
E não conseguir devolver nenhum sacrifício
Cedo aprendi a ligar o automático 

Forjar o sorriso, dizer que estou bem 
Do que adianta se lamentar 
Se ninguém é capaz de resolver o real problema
Da estrutura criada para beneficiar poucos 

Somente os brancos 
Os bem nascidos
Os da cor "certa" 

Mesmo as coisas boas
Não gosto de sentir
Porque são passageiras
E se vão num piscar de olhos 

Pode parecer estranho
Uma poesia que defenda a indiferença
Mas, decido versar sobre o que está dentro de mim 
Em vez de performar aparências 

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Notas rápidas sobre felicidade

Crônico para o sétimo dia do desafio #CreativeTober2021

Dizem que a felicidade é um estado inalcançável de plenitude, eu discordo. Para mim, a felicidade humana é feita de pequenos momentos do cotidiano. Cenas da nossa rotina que nos afetam de tal maneira a despertar mais do que um simples sorriso no rosto, mas, risadas e um coração aquiescido. 

Diferente das produções hollywoodianas, são necessárias poucas coisas para criar episódios de felicidade, apenas elementos particulares da vida de cada um. Eu, por exemplo, preciso do cheiro do café recém feito e o abraço da minha mãe para me sentir feliz ou de uma refeição feita por meu namorado. 

O dinheiro também ajuda na construção de uma situação de felicidade, as pessoas que dizem o contrário mentem. Não é possível ter um momento feliz, quando você não tem como pôr comida na mesa. 

A felicidade não é romântica, ela faz parte da vida, assim como a tragédia. Mas, cuidado, é passageira. Então, aproveite uma cena de felicidade quando acontecer, porque, a depender, é possível que demore para se repetir.

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“Fate: A Saga Winx” quer abraçar o mundo com as pernas

Uma das mais aguardadas adaptações para live-action finalmente aconteceu. A Netflix ouviu o clamor de toda a geração Bom dia & Cia e trouxe o Clube das Winx para a realidade com “Fate: A Saga Winx”.  

Como na animação, a história inicia com Bloom (Abigail Cowen) chegando a Alfea para aprender a controlar os poderes. A escola fica em Outromundo, um lugar isolado de humanos e de criaturas sanguinárias chamadas Queimados. 

Cena de "Fate: A Saga Winx"
Foto: Reprodução

 A ruivinha logo faz amizade com as companheiras de dormitório Aisha (Precious Mustapha), Musa (Elisa Applebaum), Terra (Eliot Salt) e a mimada Stella (Hannah van der Westhuysen). Já aparece aqui a primeira diferença entre a produção e o desenho purpurinado, você deve ter sentido falta de Flora e Tecna nesse grupo. 

Os responsáveis pela série não deram nenhuma explicação sobre a ausência delas, mas talvez apareçam na próxima temporada. 

A trama começa ambiciosa, trocando o glitter por um tom mais sombrio, se revezando entre um suspense e o drama adolescente. Uma vibe meio “O Mundo Sombrio de Sabrina (2018).” Ou seja, tinha tudo para ser uma produção aclamada, no entanto, o roteiro não só tinha buracos, como estava repleto de crateras. 

Bloom chegando a Alfea em Fate: A saga winx. Ela veste um cardigã vinho com uma blusa florida por baixo
Foto: Reprodução

“Fate: A Saga Winx” vem com sede demais ao pote e solta informações no ar que precisam ser amarradas em algum momento. Acontecimentos do início, como um humano que é atacado por um Queimado ou a possível ligação de Bloom com os monstros, não são mais aprofundados em momento nenhum na série.

Claro que nem tudo precisa ser explicado na primeira temporada, mas as coisas ficam tão vagas que se perdem ao longo dos episódios. Talvez, tenham esquecido que para uma trama ser bem trabalhada, ela precisa de camadas. E havia tempo para isso, cada capítulo tem 1 hora de duração em média. Infelizmente, não souberam aproveitar. 

Nem a fotografia com um bom uso de planos diferentes, as cores que deram certa vivacidade ao tom tenebroso, foram capazes de melhorar a produção. A trilha sonora, algo importante para manter o clima trevoso, também deixou a desejar.

As Winx reunidas na floresta
Foto: Reprodução

Mesmo sem conseguir entregar uma produção digna das fadinhas da nossa infância, Fate dividiu opiniões. Não é uma série ruim, tampouco é boa. É mediana e peca ao esquecer o básico. Resta a nós torcer para que melhore na segunda temporada, já anunciada pela dona Netflix. 

Girl Power? O que é isso? É filme?

Uma das coisas que mais gostava no desenho das Winx era a união feminina. Apesar das inimigas das fadas de Alfea serem mulheres também, as meninas purpurinadas eram muito amigas umas das outras e raramente brigavam entre si. 

Foto: Reprodução

“Fate: A Saga Winx”, por outro lado, decide jogar isso para escanteio e aposta numa rivalidade feminina desnecessária entre Bloom e Stella. Estamos cansadas de narrativas que ainda trazem mulheres brigando por macho ou qualquer outra coisa. Chega a ser ridículo. 

Sei que você não vai querer uma de nós

Bloom, Stella e Aisha em Fate: A Saga Winx
Foto: Reprodução

Além da ótica sexista, a produção traz um estereótipo racial com a personagem Aisha (a Layla na animação). A garota é o token perfeito para Bloom, sempre salvando a amiga branca dos apuros. É como se, literalmente, a vida dela girasse em torno da ruiva

Outros aspectos da personalidade de Aisha não são trabalhados, como o fato dela ser atlética. Nem sequer sabemos de onde ela vem, os outros gostos que possui. Fica aí mais uma missão para a próxima temporada.

Para completar a seleta de elementos presentes na maioria das produções dos anos 2000,só para mostrar que crescemos vendo filmes e séries cheias de problemáticas, a trama ainda faz whitewashing (embranquecimento). 

Elisha Applebaum como Musa
Foto: Reprodução

Se bem lembro, no desenho Musa era asiática – inclusive, o sobrenome dela é Kimura. Na série, ela foi interpretada por Elisha Applebaum uma atriz branca. Não preciso falar mais nada.  

É por esses e outros erros que Fate: A saga Winx teve um hype que não mereceu e uma renovação que não precisava. Mas vamos torcer para que os equívocos sejam reparados, afinal como dizia Hannah Montana “Todo mundo comete erros”, porém, é bom lembrar que “errar três vezes é burrice” ou melhor desleixo. 

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Para todos os garotos: Agora e Para Sempre é mais doce que o doce de batata doce

Peter Kavinsky e Lara Jean estão mais grudados do que nunca em Para Todos os Garotos: Agora e Para Sempre. LJ troca as cartas de amor por aplicações para as universidades e está ansiosa para o futuro perfeito que planejou com Peter.

Foi nessa premissa que a Netflix resolveu apostar para fechar a trilogia mais coração quentinho do serviço de streaming. Afinal, por que não deixar um clichê mais adoçado ainda? Não que seja algo ruim, há dias que estamos com desejo de coisas açucaradas.

Lara Jean olhando para um templo na Coreia do Sul.
Foto: Reprodução

 Mas, já dizia um velho ditado: tudo demais é veneno. Nem todos os clichês adolescentes precisam ser sobre relacionamentos ansiosos demais com o dia de amanhã.  Tudo bem que o drama é típico dessa fase, porém, ele pode ser motivado por outros aspectos como é mostrado ao longo do livro que deu origem a esse filme. 

 Como toda boa adaptação da Netflix, a produção foge da narrativa original e prefere focar as decisões e vivências de Lara Jean em Peter. Não se preocupe, não irei fazer comparações com a obra ainda. Seria injusto demais, irei me deter somente ao longa aqui. 

Lara Jean, Margot, Kitty e o pai delas procurando o cadeado que a mãe delas deixou na ponte dos cadeados em Seoul.
Foto: Reprodução

Diferente do segundo filme, que é um amontoado de acontecimentos sem conexão, o terceiro consegue se manter interessante como um clássico que fez parte da nossa infância nos anos 2000. Entendemos o lugar de Lara Jean, porque, um dia nós estávamos ou nos imaginamos nele. No entanto, não tem nada de inovador, é só mais um clichê adolescente. 

Para todos os garotos: Agora e Para sempre é um filme confortável, para ver depois de um dia complicado com um baldão de pipoca e uma boa panela de brigadeiro. 

Lara Jean e Peter Kavinsky no último baile da escola.
Foto: Reprodução

A trilha sonora, para variar, é incrivelmente boa e essencial para o tom do filme. É surreal o modo como foi cirurgicamente escolhida para cada parte do longa, desde o kpop na viagem à Coreia do Sul até a música tema do casalzinho. Além da fotografia, que nos dá sensação de total imersão no mundinho LJ e PK. 

Os tons pastéis são um dos ingredientes principais desse clichê perfeito. A paleta usada ajuda a manter tudo leve e agradável, mesmo nas partes tristes. 

Infelizmente, não fez jus ao último livro, que considero um dos melhores, apesar de trazer algumas falas da obra. Ainda assim, conseguiu captar uns 10% da essência (me agarrei a isso) e me fez chorar no final com a fofura extrema de Covinsky. 

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É série ou novela? Resenha de Jane, a virgem

Quando Eduarda Porfírio Costa tinha 21 anos e um mês ela resolveu começar a assistir a série Jane, a virgem. Eduarda estava precisando ver uma produção de qualidade, que deixasse seu coração quentinho, e ajudasse ela a não sentir tanta falta do namorado durante a quarentena. Já contavam seis meses que não via o amado. 

A história de uma mulher de 25 anos ainda virgem, por razões religiosas, que engravida devido a uma inseminação artificial feita acidentalmente lhe pareceu perfeita. Em poucos dias ela mergulharia na realidade de Jane Gloriana Villanueva, sendo instigada a cada suspense deixado no fim de um episódio. Era como assistir uma versão latina-estadunidense de Avenida Brasil, mas com acontecimentos mais doidos e reviravoltas muito criativas. E a jovem não precisou se preocupar em se perder no meio de tanta coisa, porque tinha sempre um narrador para situar ela. 

Xiomara, Jane, Alba e Mateo sentados na frente da casa de Alba na série Jane, a virgem
Foto: Reprodução

O clima de novela da série a ajudava a se sentir mais aconchegada, ainda que assistisse legendado, a trama poderia facilmente se passar no Brasil, senão fossem as referências constantes aos países vizinhos da América Latina e as questões de imigração. A relação tão próxima entre Jane, Alba, Xiomara e mais tarde Rogelio, poderia ser encontrada em qualquer lar periférico das terras tupiniquins. 

A protagonista ainda conseguia fugir dos estereótipos que Eduarda estava acostumada a ver em outras produções que traziam mulheres latino-americanas. Não demorou para que a jovem adulta se identificasse de cara com a organização de Jane, além do amor pelos livros de romance e a religiosidade da personagem, mesmo que fosse católica. Jane também inspirava muito Duda a escrever, quando estava na frente do computador dando lugar a sua imaginação fertil. 

Casamento de Jane e Michael, na foto Jane, Alba e Xiomara
Foto: Reprodução

Esse conjunto de elementos foram fundamentais para prender a atenção de Eduarda ao longo das três primeiras temporadas, quando a busca do traficante Sin Rostro tinha sido deixada de lado. 

As coisas parecem finalmente estar se encaixando e a trama se encaminhando  para o desfecho perfeito, contudo, a morte de Michael deu outro tom à narrativa. Algo bem diferente do que Eduarda estava acostumada, mas, de igual qualidade. A série se aproximava cada vez mais da realidade, abordando a situação de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, sexualidade e transtornos mentais. 

Petra e jane Ramos
Foto: Reprodução

A quinta temporada e última, por outro lado, se perdeu no meio do caminho. Ao tentar trazer o final ideal, com todos os personagens preferidos do público, acabou repetindo o mote do início. No entanto, dessa vez, o triângulo amoroso Jane, Rafael e Michael se tornou chato e enfadonho, para Eduarda foi um dos piores fan service que já viu. 

Alguns aspectos importantes da trama foram deixados de lado e tratados de forma muito superficial para Eduarda. Em contrapartida, ela gostou das críticas que a produção fazia ao governo Trump e a sua política contra os imigrantes.

Jane e Mateo
Foto: Reprodução

Se ela pudesse voltar atrás, teria ficado na terceira temporada, quando as coisas dão certo e o final feliz ocorre como ela queria. Porém, Eduarda não pode deixar de dar o crédito à última reviravolta, que não conseguiu prever nem de longe. Mas, se você quiser saber, terá que assistir. 

Ainda assim, Eduarda não se arrepende das horas que gastou aos domingos maratonando Jane, a virgem para relaxar após uma semana cansativa. Ela não chegou a chorar, entretanto, vibrou ao perceber o crescimento dos personagens ao longo dos episódios, até mesmo da fria Petra e do insuportável Rafael, que ao fim se tornou tolerável (pelo menos, para Eduarda).

Jane, a virgem tem cinco temporadas e está disponível na Netflix. 

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Conheça o Token: o estereótipo racial favorito dos filmes teens

Token ou tokenismo é o termo usado quando realizam a inclusão superficial de minorias sociais nos espaços em que elas não são presentes. Para simplificar, é quando cumprem a famigerada cota negra, a fim de dizer que o lugar é diverso o suficiente. 

A palavra “Token” significa símbolo em inglês, surgiu pela primeira vez em um artigo publicado por Martin Luther King em 1962, no qual ele dizia: 

A noção de que a integração por meio de tokens (símbolos) vai satisfazer as pessoas é uma ilusão. O negro de hoje tem uma noção nova de quem é.

Geralmente, a definição é tema em assuntos relacionados a Marketing e empresas que contratam uma ou duas pessoas pertencentes a minorias para dizer que prezam pela diversidade. Mas essa prática é também uma imagem de controle usada por Hollywood para que as produções tenham alguma  “representatividade”, principalmente pelas comédias teens mais famosas como High School Musical e Meninas Malvadas. 

Para fechar as discussões do Novembro Negro com chave de ouro, trouxe alguns casos de tokenismo em quatro comédias teens populares. 

Se liga: 

Taylor McKessie – High School Musical 

Taylor McKessie (Monique Coleman) em cena de High School Musical com Gabriela Montez (Vanessa Hudgens)
Foto: Reprodução

Você deve se lembrar dela como a melhor amiga da Gabriela Montez (Vanessa Hudgens), porque foi reduzida a isso em toda trama. Apesar de ter uma personalidade forte, divertida e sonhadora (a garota queria ser presidente dos Estados Unidos!) Taylor (Monique Coleman) teve uma participação mínima nos três filmes, sendo reduzida a fiel escudeira da protagonista branca. 

Eu sempre amei High School e me via muito em Taylor, mas o modo como ela foi retratada no filme me dava a impressão de que na vida real era da mesma forma. Por mais que me esforçasse, quisesse grandes coisas e corresse atrás, as meninas brancas sempre seriam as primeiras em tudo. Quer fosse na escolha dos meninos bonitos ou nas vagas de emprego. 

Gretchen Wieners – Meninas Malvadas 

Cena de Meninas Malvadas
Foto: Reprodução

A criadora da melhor gíria possível “Isso é tão barro!” só conseguiu o destaque merecido com os memes, anos depois do lançamento do filme. Não conhecemos muito da história de Gretchen (Lacey Chabert), ela nos é apresentada somente como o braço direito de Regina George (Rachel McAdams) e como alguém que gosta de ter um certo status social. 

A profundidade da personagem vai além disso, Gretchen representa a solidão da mulher negra quando era facilmente deixada de lado pela rainha abelha do grupo, mesmo sendo considerada uma de suas melhores amigas. É só reparar quando Cady(Lindsay Lohan) conquista a confiança de Regina, Gretchen logo é mandada para escanteio. A amizade de Regina George significa tanto para ela, que a adolescente literalmente surta quando perde a atenção dela. 

Gretchen transmite o lugar que eu tinha na vida das minhas melhores amigas brancas, eu sempre tinha que arranjar tempo para os problemas delas, ser compreensiva. No entanto, elas nunca tinham tempo ou ouvidos para mim. 

Dionne Davenport – As patricinhas de Bervely Hills 

Dionne em cena de As Patricinhas de Bervely Hills
Foto: Reprodução

Quando as pessoas pensam em As patricinhas de Bervely Hills, pensam no terninho amarelo icônico de Cher (Alicia Silverstone), mas eu só consigo pensar nos chapéus enormes de Dionne (Stacey Dash). Talvez, você não se lembre dela, mas a garota tinha um gosto fashion tão maravilhoso quanto o de sua melhor amiga branca. 

Assim como as outras figuras citadas, não temos muito conhecimento sobre o contexto de Dionne, quais são os seus sonhos, gostos musicais ou porque ela gosta tanto de chapéus gigantes. Ela é a parceira de Cher e ponto. 

A boa notícia é que esse cenário será revertido no reboot de As patricinhas de Bervely Hills em que Dionne será a protagonista. A produção estreará em breve no Peacock, serviço de streaming da NBC Universal. 

Fareeda – Crush a altura 

cena de Crush à Altura
Foto: Reprodução

Você provavelmente nem lembra quem é ela, mas Fareeda (Anjelika Washington) me marcou muito no filme Crush à Altura com a fala: “Quando é que vocês terão tempo para os meus problemas?”, que é dita em desabafo por estar cansada de ter os ouvidos alugados pelos dois melhores amigos brancos. Fareeda representa o auge do Tokenismo aqui, não somos apresentados nem ao seu sobrenome dela na trama. 

Além do estereótipo racial, essas quatro personagens têm a solidão da mulher negra em comum. Em todas as narrativas, elas são deixadas de lado em algum momento ou levadas a acreditar que não são tão importantes quanto seus amigos brancos. Token é uma imagem de controle amplamente usada pelas produções audiovisuais hollywoodianas que chegam aqui e nos fazem acreditar que não podemos ser o personagem principal de nossas histórias. Quando não só podemos, como devemos. 

Fonte: Politize 

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Quando me descobri negra

Não foi em um dia específico em que me olhei no espelho e pá: sou negra. Nem corri para as margens de um riacho sujo da cidade para gritar: Negritude ou Morte! A verdade é que, bem lá no fundo sabia que sou preta. Só não tinha coragem suficiente para admitir e falar isso em voz alta.

Antes de me dar conta da minha cor de pele (e do peso sócio-histórico dela) já recebia pistas da minha tonalidade. Por mais que minha mãe tentasse me proteger sob o título de parda, a sociedade apontava na minha cara de forma bem mal educada a minha negritude. Mesmo que eu fosse lesada demais para perceber.

Os insultos às vezes eram ditos explicitamente: falavam que meu cabelo era de bombril ou pixaim, que meu nariz era de batata e sussurravam sobre meus joelhos encardidos, acreditando que eu não estava ouvindo. As ofensas também eram proferidas sob a forma de piada, me chamavam de soim com a desculpa de que era um animal fofo, portanto, seríamos parecidos, quando ficava escuro na sala de aula perguntavam onde eu estava ou se tinha me camuflado.

Eu até ria para não me sentir de fora, para mostrar que aquilo não me atingia. Afinal, me considerava parda, os xingamentos não eram comigo, não fazia sentido que fossem.

As agressões também se manifestavam nos olhares silenciosos que me acusavam de nascer da cor “errada”, por isso eu era uma pobre coitada. Eles me diziam que eu era feia, esquisita e por mais que tentasse, nunca seria tão bem sucedida quanto meus colegas brancos. Eles me falavam que eu estava sempre correndo o risco de repetir os erros dos meus e acabar drogada e grávida.

Para eles, a mim cabia somente encurvar os ombros, olhar para baixo, dizer sim senhor, não senhor e NUNCA QUESTIONAR O STATUS QUO. Porque as coisas funcionam de um certo modo, que não pode ser mudado para o equilíbrio da sociedade

O despertar veio em algum momento do meu segundo semestre da faculdade, enquanto fazia um trabalho sobre racismo e futebol. As peças começaram a se encaixar e de repente, minha vida passou a fazer mais sentido. Percebi que toda a solidão que sentia não era à toa, a branquitude faz de tudo para nos deixar à margem.

A falta de referências pretas no balé, a desestruturação da família, a baixa autoestima, tudo estava (e está) conectado ao racismo velado que sofri (e sofro) ao longo da vida. Me aceitar negra foi um processo doloroso, mas acalentador quando vi que não estava sozinha. Tenho irmãos e irmãs que compartilham das mesmas dores, alegrias, ancestrais, histórias. Por eles, por mim, pelas futuras gerações é que vale a pena continuar a luta.

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5 Autores negros brasileiros para você conhecer e ler

Uma das minhas metas literárias deste ano é ler livros de autores pretos, por uma necessidade de ter personagens e histórias com quem posso me identificar de fato, além de perceber que não conhecia muitos escritores negros que contribuíram tão ricamente para a nossa literatura.

Por isso, não podia deixar de trazer uma lista com alguns escritores nacionais que possuem obras incríveis.

Se liga:

Lu Ain-Zaila

Escritora Lu Ain-Zaila
Foto: Arquivo Pessoal

Considerada a maior voz do afrofuturismo brasileiro, a escritora carioca é responsável pela primeira série futurista nacional: “Brasil 2408”, composta pelos livros “(In)Verdades” e “(R) Evolução”. A autora também escreveu a antologia “Sankofia: breves histórias afrofuturistas” e “Ìségún”, romance lançado em 2019.

Fabio Kabral

Escritor Fabio Kabral
Foto: Divulgação

É a maior referência de afrofuturismo no Brasil ao lado de Lu Ain-Zaila. O autor é responsável pelo universo de Ketu 3, uma metrópole governada por sacerdotisas empresárias e tecnologias fantásticas movidas por fantasmas. O cenário serviu de pano de fundo para “O caçador cibernético da rua 13” e “A cientista guerreira do facão furioso”. Atualmente está trabalhando na sequência desse universo. 

Conceição Evaristo 

Escritora Conceição Evaristo
Foto: Reprodução

Criadora do termo “Escrevivência”, definido como ato de por no papel as suas vivências, Conceição Evaristo publicou seus contos e poemas pela primeira na série Cadernos Negros nos anos 1990. A escritora procura trazer a realidade do povo negro em suas obras, como em Ponciá Vivêncio, Becos da Memória e Insubmissas Lágrimas de Mulheres. 

 Carolina Maria de Jesus 

Carolina Maria de Jesus escrevendo
Foto: Divulgação

Conhecida por seu romance diário Quarto de Despejo, o qual retratava o seu cotidiano na favela do Canindé no Rio de Janeiro, a catadora de papéis foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas na década de 1950. Apesar do pouco estudo, Carolina era uma leitora voraz, segundo contam seus filhos. Depois de quarto de despejo,  publicou mais três livros: Casa de Alvenaria, Pedaços de Fome, Provérbios. O Diário de Bitita e Antologia Pessoal foram lançados após a morte dela. 

Jarid Arraes  

Autora cearense Jarid Arraes
Foto: Divulgação

Natural de Juazeiro do Norte no Ceará, Jarid é cordelista, poeta e escritora. Venceu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes com o livro Redemoinho em dia quente na categoria contos/crônicas, Um buraco com meu nome e As lendas de Dandara. Tem mais de 70 títulos publicados em literatura de cordel, incluindo a coleção Heroínas Negras na História do Brasil.